A cor de uma personalidade.

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domingo, 1 de janeiro de 2023

Pelé: contraste entre uma exposição oculta

Por Paulo Sérgio L. Cavalcante Este momento que aqui escrevo é logo após o falecimento de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Escrevo no ano seguinte a sua morte, 1º de janeiro de 2023, paradoxalmente, alguns dias após sua morte física, mas antes de sua partida, pois, o velório começa amanhã. A pedido dos familiares seu velório só ocorrerá após a cerimônia de posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Percebe o entrelaçamento da lenda? Esporte, arte e política. Neste momento já ouvi as diversas manifestações pelo mundo, de ex-presidente da maior potência moderna e contemporânea, a cidadãos comuns pelo mundo da África até a Suécia, passando evidentemente pelo nosso povo, Brasil. Unanimidade mundial. Estressai um ou outro com comentários sobre o não reconhecimento da paternidade. Incrivelmente, não ouvi nada sobre o seu silêncio em relação as questões raciais, tão alardeado por alguns "militantes" do Movimento Negro. Inclusive, em particular ouvi muito, quando iniciava este blog, e reverberei para outros no decorrer de minha imaturidade militante. No entanto, nós vamos aprendendo a estudar, pesquisar e saber distinguir entre as falácias e os fatos. Compreendemos as lupas que a militância começa a nos dar, mas, é na busca da aprendizagem que vamos ampliar, sendo que a educação formal pode funcionar como uma flanela, tanto para limpar ou para sujar as lentes. Não é incomum encontrar nessa formalidade, por intermédio do eurocentrismo, autores e senhores que mais embaçam, criam pontos cegos na visão. Lógico que é o que ouvimos, vemos ou percebemos dos fenômenos que vão nos aguçando a curiosidade e impulsionando a mineração do saber, a “arqueologia”. Como se diz: “são as perguntas que movem o mundo”, ou quase isso. Ao escrever isso, bateu aquele contraste com Karl Marx que diz ser os conflitos de classe que movem o mundo. Não quero entrar em contraposição, pois, as perguntas surgem exatamente dos contrastes dessa lutas, sejam a de classe ou a de raça, que por sinal, nós, brasileiros, transitamos por esses dois paradoxos. Além da classe o homem de cor, como era chamado, assume um degrau abaixo na hierarquia social. Mas é a dialética que nos ajuda a vislumbrar as estruturas que fundamentam todas essas armaduras e camadas que cobrem a aparência ilusória. Como identificar a estrutura racial brasileira sem a lente do materialismo dialético? Por meio das leituras acadêmicas? Quais? “Casa Grande & Senzala”, “Os africanos no Brasil”, os grandes clássicos? Evidente que na tecitura artesanal são várias ferramentas que vamos fazendo uso na produção do conhecimento. Conhecer Edson Arantes, conhecer Pelé também transpassa por uma arquelogia, porque o racismo estrutural brasileiro perpassa pelo silenciamento, ou poeticamente falando, aterramento. Coleta e escavação fazem parte da arqueologia, não?! Pelé: o nascimento de uma lenda O sonho de Edson Arantes do Nascimento, se inicia muito por volta da derrota em casa em 1950, contra o Uruguai. Foi ali, que o menino ao ver as lágrimas de seu pai o promete ganhar uma copa para ele. O patriarca João Ramos do Nascimento, apaixonado por futebol, sendo ele mesmo, no passado, um almirante a craque. Jogou no Bauru para isso mudou com a família para a cidade. Rege a lenda, que Sr. Dondinho mantém o recorde de cinco gols de cabeça num único jogo. Segundo alguns especialistas, título que nem mesmo o Pelé conseguiu quebrar. Edson Arantes não era apto ao nome Pelé. A rivalidade com alguns branquinhos, que o denominaram assim, faziam com que ele repelisse o codinome. Que se fixou pela torcida em um jogo de bairro, o qual, foi visto por um representante do Santos Futebol Clube. Ali seu Dondinho foi sondado por diretor do clube que lhe deixou um cartão de visita. Com a decisão da mãe, tempos depois, haja vista que não era do feitio da Dnª Celeste Arantes os filhos se enveredando para o futebol, seu marido não havia sido bem-sucedido financeiramente e ainda se machucou, resolveu entrar em contato, ao vê-lo em estado de tristeza pela suposta perda do amigo. Com o aterramento do seu amigo na fuga, Edson entrou em luto por um longo período, o que sua mãe mandou o Dondinho levá-lo junto ao seu trabalho, limpar banheiro, privadas. O contrato do mineiro com o time de Bauru lhe dava essa condição de guarda de banheiro, segundo O Globo, edição do dia nove de maio de 1966. Nesse percurso os laços entre pai e filho foram se tornando cada vez mais firme ao ponto de pai e filho começarem a treinar a revelia da mãe. Como nada fica oculto para sempre, Celeste flagrou e decidiu fazer o contato com o dirigente que o levou ao Santos. O clichê os branquinhos da elite local contra os negros da periferia foi reverberado no filme “Pelé: o nascimento de uma lenda”, antes da revelação no Santos e reencontrado na seleção brasileira Um adendo: percebe-se nessa relação a autoridade matriarcal. Relação que por muito e pelo olhar holístico passa despercebido das narrativas militantes. Sendo que a Dona Celeste era quem chefiava a família, inclusive economicamente, enquanto o pai fazia bicos. Era ela que bancava a casa e tomava as decisões. Em certa medida muitas outras famílias negras têm essa representação, basta observar outros programas como “Todo mundo odeia o Chris”, com a Rochelly. No caso brasileiro tem explicações no suposto processo de abolição e a exclusão do negro do mercado de trabalho e educacional. Retomando, Edson se torna o Pelé. Revoltado com o apelido conversa com seu pai que o orienta a aceitar o apelido. Que já havia começado a ser chamado ainda em Bauru. O carinho e o respeito que Edson tinha pelo seu pai era exemplar. Dondinho tinha uma capacidade de educar seu filho situando-o de seu lugar, quem ele era e Pelé seguia suas orientações, inclusive que ninguém pode esconder quem é. Esse direcionamento relacionava-se com a questão estrutural do racismo. Pelé é negro e fala de negro Em campo e fora dele, em detrimento dele recebia e ouvia termos e palavras racistas. Desde a tentativa no Santos de conter a ginga. Uma onda que tomava conta de muitos jogadores e, principalmente, do técnico que queria transformar o futebol brasileiro no suíço. A copa de 1950 encontrava-se travada na garganta dos atletas e a ginga foi o considerado o bode expiatório. Na seleção, embora tenha conseguido superar no Santos, volta a defrontar com a europeização do futebol brasileiro, o limitava seus esboços de jogar futebol. Mas, sua negritude ele fazia questão de reafirmar. No entanto, precisou aprender a driblar a comissão técnica e dirigentes do futebol brasileiro. Além do campo o Rei do futebol atuou também como Ministro de Estado. Recebeu, inclusive, o Movimento Negro e reafirmou para o segmento a importância de se organizar para eleger representação. Paulo César Vasconcelos, em defesa do craque, afirma haver “uma perversidade no racismo brasileiro. Quando um homem ou uma mulher negra ganham visibilidade, por vezes deixam de ser pretos (para a sociedade). Ele não é um homem preto, ele é o Pelé”. Na sua perspectiva a simples presença do rei já é a representatividade negra. Vai além, muitas das mensagens foram ignoradas ou ridicularizadas. Como preto a sociedade assim faziam para reduzir a importância do tema vindo pela cor de pele dele. É o cinismo e dissimulação do nosso racismo e sua estrutura. Em 15 de novembro de 1995, como ministro extraordinário dos esportes do governo FHC, afirmou “o sinônimo de político no Brasil é corrupto” e complementa “o negro não carrega essa marca”, afirma a Folha de São Paulo, dessa data. Posteriormente, talvez por conta da pressão dos congressistas alegou não ter afirmado serem corruptos e fala sobre seu respeito à Casa. Em 2020, o Rei ao falar sobre o racismo credita a suposta mudança a imprensa. Segundo ele, a atenção da imprensa as questões desse gênero é que mudou, mas em sua época o racismo era presente como hoje é. Considerações Não há como negar a negritude de Pelé e como era apto esboçar esforços em distinguir-se do Edson Arantes do Nascimento. Sabido de sua morte como Edson e sua perpetuação como Pelé. De fato o futebol continua uma máquina de assassinar pretos com a tarja do racismo. No entanto, os mecanismos estruturais e estruturados de manutenção do racismo opera se renovando no seio da sociedade. De fato, poderia o rei ser rei para além das linhas e arquibancadas, no entanto, Edson preferiu não jogar-se aos tubarões. Não ansiou ser boi de piranha, mas levou ao mundo a capacidade do ser negro e da admiração, mais a si, aos negros de toda as partes. Não podemos negar sua representação mundial e sua genialidade no mundo esportivo. É o homem mais conhecido no planeta apesar de ter abandonado o futebol há tantas décadas sem ser pintado como branco como ocorre com outras personalidades, supostamente negras em nossa sociedade. Em todo caso fica a admiração e o exemplo da potencialidade negra. Foi excepcional e nossos filhos têm em quem se espelhar e saber que o nosso limite é além das estrelas. Temos um panteão de negros nos esportes que podemos referendar. A história desses podem ser contadas e apreciadas como potencialidade de sonhar. O racismo estrutural ainda permanece como entraves, o racismo não mudou, mas a forma de ver da imprensa, assim como Will Smith, afirma, o racismo não aumentou está sendo gravado. O modo, como diz Bourdieu, de mostrar ocultando televisivo que se torna um mecanismo.